“Eu trocaria minha vida pela dele”, diz irmã de entregador morto

O entregador Thiago de Jesus Dias, de 33 anos, realizava uma entrega de um vinho em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, quando sofreu um AVC na noite de sábado (6). Dois dias depois, a confirmação da morte. Ao R7, a irmã do entregador, Daiana de Jesus Dias, relata o intenso drama sofrido durante o fim de semana.
“Eu estava em casa naquele sábado. O meu telefone tocou e, com o som, a foto do meu irmão apareceu na tela do meu celular. Assim que atendi, a voz do outro lado não era a dele. Era de uma menina, dizendo que meu irmão estava passando mal e que eu precisava ir até o local. Em Perdizes, eu vi meu irmão na calçada. Inconsciente. Eu chamava, mas não tinha resposta. Ele não conseguia falar. Ele estava praticamente morrendo. Em uma calçada.
Eu acionei o SAMU, e o funcionário disse que uma ocorrência já estava em aberto. Decidi que eu tinha que resolver de outro jeito. Chamei um Uber. Assim que o carro chegou, eu coloquei o meu irmão dentro do veículo. Nesse momento, o motorista olha para trás, vê o meu irmão, e diz que ele ia vomitar dentro do carro e pediu para que saíssemos.
 
Amigos do meu irmão chegaram e conseguimos levá-lo até o hospital. Lá, o funcionário disse que a entrada era liberada apenas para ambulâncias. Esperamos, então, uma ambulância chegar e entramos atrás. Coloquei o meu irmão em uma maca e o levarem para uma sala.
Era noite de sábado, e fazia muito frio. Uma das madrugadas mais frias do ano na cidade de São Paulo. E eu estava com meu irmão em um hospital. Quando o relógio bateu 2h, me disseram que ele tinha sofrido um AVC e que estava em estado grave. Ele corria risco de morrer. Imediatamente, pedi para vê-lo.
Eu olhei para os olhos do Thiago. Eu falei que tudo ia ficar bem, que ia passar e que logo estaríamos em casa, todos juntos. Ele chorou. Eu sequei as lágrimas do meu irmão. Ele não falou nada. Apenas chorou.
Saí da sala. A médica disse que eu precisava descansar, que ali em diante ele estaria sob cuidados médicos. Passadas poucas horas, o hospital me liga. Volto para lá. Junto com dois irmãos. Outra avaliação médica: a suspeita de morte cefálica, que só poderia ser confirmada assim que a sedação passasse. Passou. A confirmação. Em seguida, um enfermeiro me para no corredor do hospital. O assunto era doação de órgãos. Juntamente com meus dois irmãos, decidimos doar os órgãos do meu Thiago.
Agora, é lutar contra a falta que Thiago já faz. Minha mãe trabalha como cuidadora, e passa apenas o fim de semana em casa. Nos outros dias, ela dorme no trabalho. Por isso, eu limpava as roupas e fazia comida para ele. Nós tínhamos uma relação muito próxima.
Ele sempre tinha um sorriso no rosto. E ele tinha problemas também, mas sempre os tornava pequenos para que não atrapalhasse a vida. Ele sempre seguia sorrindo. Thiago ajudava todos. Sem questionar, sem pestanejar. Ele ajudava a todos.
E, naquele fim de semana, era os dois dias que ele podia passar com a filha dele, de seis anos. Agora, não tem mais. Por isso, eu trocaria a minha vida pela dele”.
Condições de trabalho
Daiana conta que Thiago trabalhava, aproximadamente, 12 horas por dia. Questionada pela reportagem sobre as políticas de trabalho, a Rappi informou, por nota, apenas que os “entregadores são profissionais autônomos que podem se conectar e desconectar da plataforma quando quiserem, sem horário fixo ou exclusividade”.
O SAMU, por sua vez, disse que um procedimento de apuração foi instaurado e, após a conclusão, “a direção do órgão irá adotar as medidas cabíveis”. O prazo, segundo a nota, é de 20 dias, prorrogáveis por mais 20.
A Uber, questionada desde quinta-feira (11), não se pronunciou.
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